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Diário para exorcizar a dependência

O papel ainda em branco é o início da cura. Preenchido pelos mais diversos tipos de letra, revela feridas escondidas, profundas. Difíceis de sanar. Juntas, as frases funcionam como uma válvula de escape, tal como uma terapia, com os próprios fantasmas. Os mesmos que um dia, quem sabe, estiveram por trás do uso compulsivo de drogas. Daniel, Maurício e Fábio (nomes fictícios) escrevem até hoje para ficar longe das pedras. São parte de uma geração doente, travestida na pele de gente, em geral, muito jovem, que participa de um tratamento baseado nos 12 passos dos Alcoólicos Anônimos. Com autorização dos autores, tivemos acesso a diários escritos pelos viciados durante o internamento no Recanto Paz, uma comunidade terapêutica em Igarassu, na Região Metropolitana do Recife.

"Por que estou aqui?", escreve um Daniel que tenta banir as drogas da própria existência, internado em uma casa de recuperação de dependentes. "(...) atos como roubar, tanto dentro de minha casa como na rua, chegando até o ponto de praticar assaltos. Estava prejudicando todos ao meu redor", relatou em um trecho do diário que escreveu na unidade de tratamento.

Daniel escreve para curar as feridas abertas pelas pedras. Participa de um tratamento baseado nos 12 passos dos Alcoólicos Anônimos, na Recanto Paz. Conheceu o crack na primeira estadia na cadeia, aos 21 anos, quando foi preso por atirar em uma mulher durante uma tentativa de assalto. Dali nasceu a obssessão pela droga. "Enquanto não usava, as mãos ficavam trêmulas, suando. É a mesma coisa que se preparar para uma festa. A gente fica ansioso", compara.

Dos nove anos de consumo compulsivo, quatro aconteceram de forma consecutiva dentro de presídios pernambucanos. Daniel chegou a dever até R$ 300 por semana aos traficantes das cadeias. Ao sair, abriu a própria boca-de-fumo de crack. "Certo dia, estava com R$ 200 em casa e senti vontade de usar. Orei, pedi a Deus, mas não foi suficiente. Peguei R$ 20 para usar uma única dose achando que poderia controlar. Depois, voltei para casa e peguei o resto do dinheiro. Só cheguei às 2h da manhã. Menti para minha esposa. Foi questão de tempo para a compulsão crescer como nunca", escreveu Daniel, lembrando uma das tentativas de escapar do vício e do mundo do crime.

Mas até Daniel, que confessou ter participado do assassinato de três pessoas, chora ao contar a própria vida. "Queria ter uma história normal, trabalhar, terminar os estudos, ter família, carro. Não conseguia. Não sabia lidar com frustrações. Usei droga para fugir, me sentir mais seguro", desabafa.
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